O que ocorrerá com o planejamento das cidades brasileiras no que diz respeito às desigualdades sociais, após a pandemia

A cidade representa a vontade dos indivíduos de se relacionarem em uma sociedade. Nesse processo de socialização, seus moradores desenvolvem uma cultura na construção de espaço-tempo, definindo uma identidade, um modo de ser com ela. Desta forma, a cidade torna-se cenário de transformações complexas no dinamismo de seus grupos sociais. Mas a questão fundamental sobre a almejada qualidade de vida está diretamente associada com a forma de como viver nas metrópoles, e como estas irão se desenvolver (Martins, 2018).

Em especial, em países com elevada desigualdade social, as áreas mais carentes das cidades são ocupadas pelos mais pobres, e não raro em áreas de preservação ambiental, conforme Gordilho (2000), normalmente é o que ocorre na configuração de ocupação das cidades brasileiras, pela população de baixa renda, que, sem conhecimento e incapacidade de pagar para morar em condições técnicas adequadas, vive predominantemente em áreas de risco. Sem saneamento básico,embora seja um direito, assegurado pela Constituição Federal/88, e definido pela Lei 11.445/2007,como o conjunto dos serviços,infraestrutura e Instalações operacionais de abastecimento e distribuição de água potável, coleta e tratamento de esgoto sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de águas pluviais e de resíduos sólidos ,que, há pelo menos dez anos, fosse a Lei nº 12.305/10,que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) realmente implementada nos municípios brasileiros,já estaríamos mais aptos a enfrentar os problemas relacionados com o manejo inadequado destes resíduos. O que faz uma brutal diferença, aprofundando ainda mais as desigualdades sociais. Sabemos que ausência de um destes componentes constitui fonte de doenças. Segundo Anthony Wong, médico toxicologista e pediatra, as consequências de ignorar o saneamento no país afeta principalmente os mais pobres.Entretanto, pode chegar até as classes mais altas, como as epidemias de Dengue ou Zika.

Um dos aspectos importante para análise do risco é a distribuição espacial da pobreza nas cidades para gestão urbana, onde, por exemplo, há processos naturais que podem afetar a população, de forma a gerar riscos desiguais no espaço urbano, como por exemplo, uma chuva de grande intensidade que pode representar uma perda para alguns, ou para outros, pode levar até a morte (Gordilho 2000).

O histórico de impactos ambientais no meio urbano segue a linha cronológica do desenvolvimento das cidades, transformando o homem no seu principal agente impactante desde os primórdios das civilizações. Sabemos que as transformações devido ao crescimento das cidades geram impactos, alterando as dinâmicas ambientais dos diversos ecossistemas. Este efeito pode ser mitigado, mas é irreversível. As mudanças se fazem, normalmente, de forma acelerada, o que não permite um planejamento adequado, com projeção de cenários futuros, e acaba por acarretar muitos problemas ao meio urbano (TEIXEIRA, 2009).

Neste atual cenário, no primeiro semestre de 2020,a pandemia vem atingindo e transformando os hábitos das populações em todo o mundo globalizado. Uma questão bastante curiosa e preocupante para nossa reflexão: haverá mudanças no planejamento urbano após a pandemia, após décadas de políticas urbanas ineficientes, de forma a evitar novos surtos de doenças tão contagiantes quanto a atual pandemia? Na Revista Estadão, Infográficos, Giovanna Wolf e Pablo Pereira relatam algumas previsões de sociólogos e urbanistas.

Referencias

GORDILHO, Ângela. Limites do habitar: segregação e exclusão na configuração urbana e contemporânea de Salvador e perspectivas no final do Século XX. Salvador: EDUFBA, 2000.

TEIXEIRA, A. N.; ESPÍRITO SANTO, M. T. G. do. A ZEIS de Vila Nova Esperança: habitação de interesse social no Centro Histórico de Salvador (Pelourinho/BA). Revista Vera Cidade, ano 4, n 4., mar. 2009.

Estadão Revista Infográficos,disponível em : www.estadao.com.br/infograficos/saude,comoserao-as-cidades-no-pos-pandemia,1100189 . Acesso em 14 de Junho de 2020

 

Martha Santana Martins

Coordenadora do Comitê de Assistência Técnica


Enga Civil, Mestra em Desenvolvimento Regional e Urbano / Gestão Ambiental; Atuação: avaliações e pericias, projetos, reformas e orientações acadêmicas.
 

1 Comment

  1. ADMA TANAJURA ELBACHA disse:

    Martha,

    Muito interessante seu texto. Embora a pandemia seja de certa forma universalizada, não resta dúvida que a população mais pobre é também a mais vulnerável. Penso que seja um momento de avaliarmos como o planejamento urbano, ou a falta dele vem ocorrendo. E acho que os espaços urbanos devem ser resignificados bem como a própria função da moradia.

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