A ciência e os avanços no conhecimento sobre a evolução das espécies

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A teoria da evolução das espécies de Charles Darwin apresentou em 1859 evidências da evolução das espécies mostrando que a diversidade biológica é o resultado de um processo de descendência com modificação, onde os organismos vivos se adaptam gradualmente através da seleção natural e as espécies se ramificam sucessivamente a partir de formas ancestrais, como os galhos de uma grande árvore: a árvore da vida. Outra observação importante de Darwin acerca das populações na natureza é a grande variabilidade entre os indivíduos, mesmo para aqueles pertencentes à mesma espécie. Se, por acaso, numa população qualquer surgir uma variação vantajosa, por menor que seja, essa variação fornecerá a seus portadores uma maior chance de sobrevivência. Levando em consideração que apenas aqueles seres portadores das características mais adaptativas conseguirão chegar à fase adulta e se reproduzir, cada vez mais as novas gerações acumularão variações vantajosas para viver naquele ambiente específico. Populações separadas, vivendo em ambientes diferentes, poderão com o tempo se transformar em espécies, em decorrência da acumulação de diferentes características. A proposta de Darwin de que as espécies se originam por processos inteiramente naturais contradiz a crença religiosa na criação divina tal como é apresentada na Bíblia, no livro de Genesis (BROWNE, J. A Origem das Espécies de Darwin: uma Biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007).

 

É importante observar que Darwin se guiou pelos estudos já existentes sobre a geologia e a evolução dos seres vivos e em suas observações durante os cinco anos que viajou pelo mundo à bordo do Beagle. Formulou sua teoria da evolução que revolucionou o mundo,  em especial suas conclusões sobre a seleção natural. Para Darwin, todas as espécies atuais se originaram, através de modificações que sofreram ao longo de milhares de anos, a partir de ancestrais comuns. Foi o ambiente que atuou, limitando a continuidade de algumas espécies menos adaptadas e favorecendo que espécies mais adaptadas se perpetuassem. É o processo da seleção natural agindo sobre os organismos. Assim como Darwin, outro naturalista britânico da época, Alfred Russel Wallace, que é pouco citado, chegou a conclusões muito semelhantes sobre a origem e evolução das espécies, tendo os dois  anunciado em 1858 suas ideias à sociedade científica.   

 

O conjunto das teorias evolucionistas sugeridas pelo naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck, que propunha as leis: “Lei do Uso e do Desuso” e a “Lei da Transmissão dos Caracteres Adquiridos” foi genial para a época em que ele as sugeriu (1809), pois se acreditava que as espécies eram imutáveis desde sua origem (DELANGE, Yves. Jean-Baptiste Lamarck. Paris: Acts Sud, 2002). Lamarck não concordava com o criacionismo da época e através das suas observações e estudos sobre os seres vivos, percebeu que havia mudanças nas características dos organismos, que ele julgou fossem uma resposta frente às necessidades deles se adaptarem ao ambiente, transmitindo essas aquisições sucessivamente aos descendentes. Embora as ideias de Lamarck sejam anteriores às ideias de Darwin, quando o assunto é evolução, Charles Darwin é o primeiro a ser citado.

 

Com o evoluir do tempo, ocorreram inúmeras deturpações do darwinismo. No final do século XIX, surgiu o chamado darwinismo social, que propunha explicar o comportamento dos indivíduos em sociedade por intermédio da seleção natural. Várias teses pseudocientíficas procuraram afirmar a existência de uma suposta inferioridade racial e até de tendências criminosas, além de justificar a competição acirrada no mercado capitalista, onde “somente os mais fortes sobrevivem”. Nada mais estranho ao que Darwin propunha com a teoria da evolução das espécies. Talvez a mais desastrosa apropriação da obra darwinista tenha sido a eugenia, proposta pelo cientista britânico Francis Galton, primo de Darwin, como método de aperfeiçoamento genético de raças pela seleção artificial – basicamente, casamentos arranjados entre indivíduos considerados mais inteligentes, fortes e saudáveis. Mais recentemente, surgiram correntes mais científicas, como a sociobiologia, nos anos de 1970, e a psicologia evolutiva, nos anos de 1990, apesar de também serem muito criticadas pelos evolucionistas (BROWNE, J. A Origem das Espécies de Darwin: uma Biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007).  

 

Atualmente, o maior adversário da teoria da evolução de Darwin é o movimento criacionista. Os criacionistas se opõem ao ensino do darwinismo nas escolas desde os anos de 1920 nos Estados Unidos, pelo fato de as descobertas contrariarem dogmas religiosos. Em sua última versão, os criacionistas propuseram a teoria do “design” inteligente para tentar provar a existência de uma inteligência superior (que pode ser Deus) orientando a evolução das espécies, ao invés do mero acaso de mutações genéticas. Os criacionistas argumentam que o pensamento darwinista é incoerente e está em crise (o que não é verdade). A mensagem de Darwin é incômoda: não somos superiores aos outros seres que habitam este planeta; não caminhamos, necessariamente, para um mundo melhor; e nem somos donos de nosso destino (SCOTT, Eugenie. Evolution vs. Creationism: An Introduction.Berkley e Los Angeles, California: University of California Press, 2006). 

 

O Neodarwinismo, chamado também de “Teoria Sintética (ou Moderna) da Evolução”, surgiu no século XX estando relacionado com os estudos evolucionistas de Charles Darwin e as novas descobertas no campo da genética (CARDOSO, Mayara. Teoria Moderna da Evolução. Disponível no website  <http://www.infoescola.com/biologia/teoria-moderna-da-evolucao/>, 2016). As lacunas que surgiram após a publicação da obra “Origem das Espécies” (1859) de Darwin foram desvendadas pelo avanço dos estudos genéticos. A partir do conhecimento do mecanismo genético da hereditariedade, das mutações e recombinações dos gens, algumas das lacunas no processo evolutivo foram esclarecidas. Com isso, foi definida uma síntese da teoria da evolução que passou a ser uma referência fundamental para a explicação de muitos processos biológicos. Aceita atualmente pela maioria dos cientistas, a teoria moderna da evolução se tornou um tipo de eixo central da biologia, aproximando disciplinas como sistemática (ciência que classifica os seres vivos através do estudo comparativo de suas características, aspectos e fenômenos morfológicos, fisiológicos, genéticos e evolutivos com o objetivo de reconstruir seu histórico evolucionário a partir das relações e afinidades entre os diversos grupos de espécies), citologia (ciência que estuda as células, estruturas que compõe os órgãos e tecidos dos seres vivos) epaleontologia (ciência que estuda as formas de vida existentes em períodos geológicos passados, a partir dos seus fósseis) (AMABIS, José Mariano e MARTHO, Gilberto Rodrigues. Biologia das Populações. São Paulo: Moderna, 2004).

 

*Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

 

Fernando Alcoforado*

 

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