Vasco Neto, O Meu Mestre

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Nesta Escola Politécnica, tive muitos professores. Vasco Neto foi o meu Mestre. Apesar de toda a sua competência, consciência e sabedoria, mostrou-me, com seu exemplo, que a maior virtude de um homem é a humildade, exercida com muito trabalho.

 

Ser mestre é mais do que ser professor, extrapolando a palestra em sala de aula e sobretudo formando seguidores capazes de divulgar seus ensinamentos e continuar sua obra. Entre muitas ideias, Vasco Neto tinha alguns ideais, o mais forte dos quais, a proposta de se fazer coordenação dos transportes, dentro de um conceito de projeto a partir do que chamava de “linhas de menor resistência”, um termo criado como diretriz para o projeto de estradas, mas que servia também como eixo principal da sua visão dos transportes pelo ângulo intermodal, dando à questão política uma solução técnica e econômica, sobretudo de modos ferroviários, rodoviários e hidroviários, mas também aeroviários. Assim, fez uma revolução no ensino dos transportes na Escola Politécnica, não apenas criando o seu Departamento de Transportes, mas dividindo sua matéria de Estradas – sua Cátedra – em cinco disciplinas de estradas, aeroportos e coordenação dos transportes, para se juntar à de Portos. Fazendo-se então a reforma administrativa do Estado da Bahia, ao fim do governo de Lomanto Júnior, essa proposta foi inserida com a criação de um órgão para fazer Coordenação dos Transportes.

 

Na Escola, guardo sua imagem como professor que ensinava, conversando em sala de aula, não apenas para transmitir conteúdos que já estavam nos livros e nunca para ufanar-se pela quantidade de alunos reprovados, mas ao contrário e sobretudo, para estimular, em nós, uma visão conjunta dos transportes a partir do planejamento integrado na implantação e operação de vias, meios e terminais, tentando fazer-nos verdadeiros agentes para a execução desse projeto de integração, assim nos instruindo e transmitindo o seu ideal, na esperança de nos ver a prosseguir nesse caminho. Meu mestre Vasco Neto era, portanto, um idealista com os pés no chão, propondo-nos encontrar as linhas de menor resistência para viabilizar os projetos modais e intermodais.

 

Sua presença em sala de aula e seu discurso nos dois anos finais do curso de Engenharia Civil deram-me a certeza de que todas as matérias anteriores eram apenas subsidiárias para o grande objetivo que descobria, para a minha vida: planejar e projetar vias e terminais de transporte. Concluía-se a reforma administrativa do Estado da Bahia, com a criação de um órgão para fazer a coordenação dos transportes. Escrevi e publiquei no Jornal da Bahia um caderno especial sobre o assunto e enviei um exemplar para o então eleito governador Luís Viana Filho, no dia seguinte ao da minha formatura, recebendo dele, a resposta imediata de que na época oportuna me convocaria. Sem nunca o ter visto na minha vida, confiei e esperei, recusando outros convites para trabalhar em obras de estradas. No dia seguinte ao da sua posse, às 8 horas da manhã, o governador telefonou para minha casa e marcou a hora para encontrá-lo no Palácio Rio Branco. Disse-lhe que queria trabalhar na coordenação dos transportes e ele me mandou para a Secretaria dos Transportes, com um cartão em que dizia isso. O Secretário informou que ainda não tinha o Coordenador dos Transportes e perguntou-me se eu conhecia alguém. Eu lhe sugeri o nome de Vasco Neto, que ele festejou com um murro de entusiasmo na mesa, fazendo-me portador do convite, que levei na noite daquele mesmo dia para o meu Mestre, em sua casa. O que aconteceu depois de Vasco Neto ser nomeado para o cargo foi resultante de forças imensas que respondem pelo congelamento das estruturas do atraso, que impediram a implantação do novo órgão, no Estado da Bahia.

 

Costuma-se dizer que todo idealista é pobre. Ao contrário, o idealismo é a marca do Mestre que se enriquece de experiências e evolui com o sofrimento cotidiano imposto pelo egoismo de quem não consegue ver além das cortinas de suas janelas e fica limitado a esse ambiente interior. Ao contrário, o Mestre expande-se no espaço e no tempo, tornando-se rico na imortalidade. Vasco Azevedo Neto já é imortal… Mais do que professor, ainda é o meu mestre. Aprendi com ele, que o professor apenas ensina e instrui, mas o mestre estimula e conduz, com o seu exemplo, com sua razão, com o exercício da ideia que flui racionalmente até sua realização. Procurei aplicar isso anos mais tarde, ensinando nesta escola, a disciplina Estradas e Transportes I, uma das que ele criou e ensinou.

 

Não há prêmio maior para um discípulo, do que o de sentar na cadeira do seu Mestre.

 

Autor:

Adinoel Motta Maia é engenheiro e professor aposentado da Escola Politécnica da Ufba.

Pronunciamento proferido nas homenagens a Vasco Neto, em março/2016.

 

Os 100 anos do professor Vasco Azevedo Neto foram amplamente comemorados na Bahia, em março. As homenagens incluiu uma mesa redonda promovida pelo Instituto Politécnico da Bahia (IPB) na Escola Politécnica da Ufba. Na solenidade foi inaugurada uma ala do Departamento de Transportes com o nome de Vasco Neto. Além de engenheiro e professor, Vasco Neto foi deputado federal por quatro mandatos consecutivos, entre 1970 e 1986. Ele foi responsável pela criação do Departamento de Transportes da Escola Politécnica da Ufba e idealizou o projeto de construção da Ferrovia Oeste-Leste, defendendo o fortalecimento do sistema ferroviário como opção para impulsionar a economia brasileira. Ainda em construção, a Ferrovia de Integração Oeste Leste-FIOL, com 1.527 km de extensão, estabelecerá à comunicação entre o porto em Ilhéus e as cidades baianas de Caetité e Barreiras a Figueirópolis, no Tocantins.

 

Vasco de Azevedo Neto faleceu no dia 25 de fevereiro de 2010, aos 94 anos. 

Leia artigo do engenheiro e professor Adinoel Motta Maia sobre o professor Vasco Neto.

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